DIABETES MELLITUS 3: COMPLICAÇÕES – PREVENÇÃO E MANEJO

Nutrição Saúde Treino

Questões Abordadas Neste Material:

  1. Quais são as principais complicações do diabetes?
  2. Como prevenir complicações do diabetes?
  3. O que é neuropatia diabética?
  4. Como o diabetes afeta os rins?
  5. Quais são os sinais de retinopatia diabética?
  6. O que é hipoglicemia e como tratá-la?
  7. O que é cetoacidose diabética?
  8. Como prevenir problemas nos pés em diabéticos?
  9. Qual a relação entre diabetes e doenças cardiovasculares?
  10. Como identificar emergências em pacientes diabéticos?

Complicações agudas do diabetes

Hipoglicemia

A hipoglicemia é a complicação aguda mais frequente no tratamento do DM. Sua ocorrência é de extrema importância, tanto pelos efeitos clínicos agudos e sua potencial gravidade quanto pelas possíveis sequelas neurológicas decorrentes de casos graves e repetidos.

A hipoglicemia é a principal barreira para obtenção de um bom controle e níveis permanentemente baixos de hemoglobina glicada. Atualmente, as metas de controle metabólico no tratamento do DM aproximam-se muito do limiar de hipoglicemia, tornando esse ajuste extremamente difícil.

O nível de glicemia para caracterizar hipoglicemia varia na literatura, mas, em geral, utiliza-se o valor de 50 mg/dL como um número consensual, já que glicemias abaixo desse valor já estão associadas a sintomas de hipoglicemia e prejuízo da função cerebral.

Os sintomas podem ser decorrentes da resposta autonômica por aumento de catecolaminas, que inclui palidez, sudorese, tremores e taquicardia, ou da neuroglicopenia, que se manifesta por fome, tontura, confusão mental, convulsões e coma. Alterações de humor e da personalidade podem ocorrer, constituindo sinal de alerta para um episódio de hipoglicemia.

Tratamento da hipoglicemia:

  • Hipoglicemias leves caracterizadas por fome, tremor, nervosismo, ansiedade, sudorese palidez, taquicardia, déficit de atenção e comprometimento cognitivo leve – ou assintomáticas – devem ser tratadas com 15 g de carboidrato, preferencialmente glicose, ou uma colher de sopa de açúcar ou mel, 150 mL de suco de laranja ou 150 mL de refrigerante comum.
  • Nos casos moderados a graves com cefaleia, agressividade, visão turva, confusão, tontura, dificuldade para falar ou midríase, devem-se oferecer imediatamente 30 g de carboidrato (açúcar ou glicose) por via oral.
  • Se o paciente estiver inconsciente ou apresentando convulsões, o tratamento extra-hospitalar de escolha é o glucagon na dose de 0,5 mg (subcutâneo) em menores de 5 anos e de 1 mg em maiores de 5 anos, podendo ser repetido em 10 minutos se não houver resposta.
  • O tratamento hospitalar consiste em flush venoso de glicose 0,3 a 0,5 mg/kg, seguido por glicose intravenosa de manutenção.

Todo evento de hipoglicemia deve ser seguido por monitoração frequente e um lanche ou refeição com alimentos ricos em carboidratos, já que o efeito da glicose é rápido. Apesar da necessidade do tratamento imediato e eficaz, é importante evitar hiperglicemia de rebote.

Cetoacidose diabética

A cetoacidose diabética (CAD) é uma complicação aguda hiperglicêmica típica do DM1 e desenvolve-se em casos de deficiência insulínica grave ou absoluta, comumente associada a situações estressantes, como tratamento inadequado ou processos infecciosos, que levam ao aumento dos hormônios contrarreguladores. O aumento da atividade cetogênica é um componente fisiopatológico marcante dessa situação clínica.

O diagnóstico de cetoacidose é definido por glicemia acima de 300 mg/dL, pH inferior a 7,3 e bicarbonato abaixo de 15 mEq/L, cetonemia e/ou cetonúria. Os sintomas iniciais são poliúria, polidipsia e polifagia. O quadro pode evoluir com náuseas, vômitos e dor abdominal. Consequentemente, desenvolvem-se desidratação, alteração do nível de consciência e coma. O agravamento da acidose leva à respiração característica de Kussmaul.

O tratamento da CAD fundamenta-se na correção dos distúrbios endócrino-metabólicos, hidroeletrolíticos e ácido-básicos do paciente. É necessário restabelecer as condições básicas de vida, fazer a hidratação e a correção da acidose de forma lenta para minimizar o risco de complicações.

Durante períodos de doença aguda, os pacientes devem seguir cuidados especiais para evitar a CAD:

  1. Manter o uso habitual das doses de insulina e outros medicamentos para reduzir a glicemia
  2. Monitorar as concentrações de glicose sanguínea e realizar testes de urina ou sanguíneos para cetonas ao menos quatro vezes ao dia
  3. Ingerir grande quantidade de líquidos
  4. Se alimentos regulares não forem tolerados, ingerir líquidos ou alimentos leves contendo carboidratos
  5. Chamar a equipe de cuidados em saúde se a enfermidade continuar por mais de 1 dia

Complicações crônicas do diabetes:

Os pacientes diabéticos, em sua evolução a longo prazo com a doença, podem apresentar complicações vasculares (macro ou microvasculares) e neurológicas, que representam um sério problema de saúde pública, pois são uma importante causa de mortalidade e morbidade, frequentemente incapacitantes e pioram a qualidade de vida dos pacientes.

O desenvolvimento dessas alterações patológicas parece estar diretamente relacionado à duração do DM e ao grau de controle metabólico. Vários estudos prospectivos de longa duração e com grande número de pacientes (DCCT, UKPDS) apontam nessa direção, especialmente considerando as complicações microvasculares e neurológicas.

Doenças macrovasculares

A lesão macrovascular do diabete é uma doença aterosclerótica que também está presente na população geral, mas é mais precoce no paciente com diabete, mais intensa e mais grave, sendo a principal causa de mortalidade para esse grupo populacional.

A prevenção primária da doença macrovascular implica a prevenção de um conjunto de fatores de risco cardiovascular muito frequentemente observados na população, como hipertensão, obesidade, dislipidemia, tabagismo e sedentarismo, incluindo o diabetes.

Hipertensão arterial: A meta ideal para o diabético é: pressão arterial igual ou inferior a 130/80 mmHg. O tratamento inclui medidas não medicamentosas (perda de peso, atividade física, controle de ingestão de sal e de bebidas alcoólicas, abolir tabagismo) e tratamento medicamentoso quando necessário.

Dislipidemia: A meta ideal para o diabético é: colesterol total inferior a 200 mg/dL, triglicérides inferiores a 150 mg/dL, LDL-C inferior a 100 mg/dL e HDL-C superior a 40 mg/dL em homens e superior a 50 mg/dL em mulheres.

Doenças microvasculares

Neuropatia: Neuropatia diabética é o distúrbio neurológico demonstrável clinicamente ou por métodos laboratoriais em pacientes diabéticos, excluindo-se outras causas de neuropatia. A prevalência da neuropatia diabética atinge níveis elevados com a evolução temporal do diabetes, chegando geralmente a frequências de 50% de lesão neuropática em diferentes grupos de pacientes.

Na maioria dos casos, o acometimento patológico na neuropatia diabética é amplo no organismo, apresentando-se de duas formas principais:

  • Polineuropatia sensitiva/motora simétrica
  • Neuropatia autonômica (cardiovascular, respiratório, digestivo, genitourinário)

Menos frequentemente, a lesão neuropática é mais localizada, apresentando-se nas formas de mononeuropatia focal, neuropatia multifocal radicular, neuropatia multifocal multiplexos e plexopatia ou amiotrofia.

O tratamento da neuropatia diabética envolve três principais componentes:

  1. Controle metabólico: o bom controle metabólico do diabete é o principal fator preventivo da neuropatia
  1. Tratamento dos sintomas (parestesias) e sinais da neuropatia sensitivo-motora, especialmente da dor neuropática
  2. Tratamento dos sintomas e sinais de neuropatia autonômica

Nefropatia: A nefropatia diabética é uma complicação microvascular do diabete, sendo apresentada atualmente como a principal causa de insuficiência renal crônica em pacientes que necessitam entrar em programas de diálise e transplante renal. A microalbuminúria é o estágio inicial da lesão renal no paciente diabético (nefropatia incipiente), evoluindo em fases mais avançadas para proteinúria (macroalbuminúria) ou nefropatia clínica, com redução progressiva da filtração glomerular.

O tratamento da nefropatia envolve, além do controle glicêmico e do controle intensivo de pressão arterial, o uso de inibidores da enzima conversora de angiotensina II (IECA), bloqueadores do receptor da angiotensina II (BRAII), antagonista de renina plasmática, intervenção dietética com restrição de proteínas e controle de dislipidemia e anemia.

Retinopatia: A retinopatia é a principal causa de cegueira adquirida. O risco de perda visual e cegueira é significativamente reduzido com a detecção precoce, quando alterações irreversíveis retinianas ainda não estão presentes, e o rápido acesso ao tratamento.

A retinopatia diabética tem duas fases evolutivas: não proliferativa e proliferativa. Na primeira, ocorrem alterações vasculares (microaneurismas, hemorragias, extravazamentos) que prejudicam a nutrição e oxigenação da retina. Na fase proliferativa, a neovascularização em resposta à hipóxia agrava a situação, levando a maiores hemorragias, fibrose e descolamento de retina.

O exame de fundo de olho deve ser feito de forma rotineira com periodicidade anual, podendo ser menor, dependendo do grau de retinopatia ou durante período gestacional. A fotocoagulação de lesões com laser é benéfica para a preservação da visão.

Pé diabético

O pé diabético, com lesões em pés e membros inferiores decorrentes de úlceras, infecções e gangrenas, representa a mais mutilante complicação crônica do DM, com forte impacto social e econômico. As afecções de membros inferiores no paciente diabético envolvem a neuropatia e as lesões vasculares (macro e microvasculares), o que determina uma situação de vulnerabilidade a traumas, ulcerações e infecções que podem progredir para gangrenas e necessidade de amputação.

Hipoglicemia de origem não diabética

A hipoglicemia de origem não diabética tem sido definida como uma síndrome clínica com diversas causas onde as baixas concentrações de glicose plasmática eventualmente levam à neuroglicopenia. Por via de regra, o organismo é nitidamente adepto em manter bastante estáveis as concentrações glicêmicas — em geral, entre 60 e 100 mg/dL (3,3 a 5,6 mmol/L), apesar da ingestão intermitente de alimento.

Tipos de hipoglicemia não diabética

Hipoglicemia pós-prandial (reativa): Ocorre quando as concentrações da glicose sanguínea caem abaixo dos limites normais dentro de 2 a 5 horas depois da refeição. Pode ser causada por uma resposta exagerada ou tardia à insulina causada tanto pela resistência à insulina quanto por GLP-1 elevado; hiperinsulinismo alimentar; glicosúria renal; defeitos nas respostas do glucagon; alta sensibilidade à insulina; ou um raro tumor pancreático de célula beta (insulinoma).

Hipoglicemia de jejum (pós-absortiva): Geralmente está relacionada com uma doença subjacente. Ocorre em resposta por ter ficado sem alimento por 8 horas ou mais e pode ser causada por condições que perturbem a capacidade do organismo de equilibrar a glicose sanguínea, como estados de deficiência hormonal, doença hepática, doença renal, ou certos medicamentos.

Tratamento da hipoglicemia não diabética

O tratamento das alterações hipoglicêmicas envolve dois componentes:

  1. Alívio dos sintomas neuroglicopênicos pela restauração das concentrações da glicose sanguínea a uma faixa normal
  2. Correção das causas subjacentes

Para prevenir os sintomas hipoglicêmicos, recomenda-se:

  1. Ingerir pequenas refeições, com lanches intercalados entre as refeições e à hora de dormir
  2. Dividir a ingestão de alimentos com carboidrato durante todo o dia
  3. Evitar ou limitar os alimentos com alto teor de açúcar e carboidratos, principalmente com estômago vazio
  4. Evitar bebidas e alimentos contendo cafeína
  5. Limitar ou evitar as bebidas alcoólicas

Próximo artigo: Terapia nutricional avançada para diabetes – planos alimentares, contagem de carboidratos e técnicas de monitoramento.

As complicações do diabetes podem ser graves, mas com conhecimento e controle adequado, muitas delas podem ser prevenidas ou minimizadas. No próximo artigo, aprofundaremos nas estratégias nutricionais avançadas para o controle do diabetes.

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